São 20 anos de Queer Lisboa em boa companhia

As edições de aniversário deixam sempre um quê de magia no ar, abrindo expectativas que só poderão ser concretizadas no momento certo à hora certa. Para este Queer Lisboa 20, a programação superou ideais, conquistas e pensamentos que duram há 20 anos nas nossas cabeças.

ALMANAQUE - Queer Lisboa 20

A nossa atenção vira-se de imediato para o filme de abertura, a chegada fabulosa de Edina Monsoon e de Patsy Stone ao grande ecrã com o irremediável ‘Absolutely Fabulous: The Movie’ (Mandie Fletcher, EUA, 2016). Depois de empurrarem Kate Moss para o Rio Tamisa, Eddy e Patsy vêem-se embrulhadas num turbilhão sem precedentes e acabam por fugir para a Riviera Francesa, onde pretendem manter a vida de luxo a que sempre se habituaram, mas, desta vez, para sempre.

ALMANAQUE - Queer Lisboa 20

A noite de encerramento conta com ‘Looking: The Movie’ (Andrew Haigh, EUA, 2016), que relata a história de Patrick, um homem que regressa a São Francisco para o casamento de uns amigos depois de se ter mudado para Denver há um ano. Este regresso vai obrigá-lo a lidar com relações mal resolvidas e outras questões directamente ligadas à vida e à forma como enfrentamos cada umas das suas faces.

Pelo meio, poderemos contar com as competições de Longas-Metragens, de Curtas-Metragens, de Documentários, In My Shorts e Queer Art, bem como o retorno do Panorama, o lançamento do livro ‘Cinema Explícito’ de Rodrigo Gerace, masterclasses – incluindo uma com a actriz Susane Sachsse e o próprio Gerace – bem como a retrospectiva de um dos mais incríveis realizadores queer contemporâneos, Derek Jarman, na Cinemateca Portuguesa. Debates, festas e sessões especiais fazem também parte deste riquíssimo leque.

Perante um momento tão significativo na vida do Queer Lisboa, falámos com o director, João Ferreira, e ficámos a saber quais os cinco filmes que destacaria e porquê. De 16 a 24 de Setembro no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa.

‘Antes o Tempo Não Acabava’ (Fábio Baldo e Sérgio Andrade, Brasil, 2016)

Passado entre Manaus e uma aldeia indígena dos arredores da cidade, apesar de se tratar de uma ficção, o filme explora a linguagem do documentário ensaístico, o que dá uma enorme força poética à narrativa. O filme discute as questões da identidade não-branco/branco na personagem de Anderson, que migra para Manaus, com uma enorme subtileza.

‘Waiting for B.’ (Abigail Spindel e Paulo Cesar Toledo, Brasil, 2015)

O pressuposto deste documentário parece divertido: através das redes sociais, um grupo de fãs da Beyoncé decide marcar lugar à porta do estádio do Morumbi, em São Paulo, para ficar na fila da frente do concerto. Quase dois meses antes, montam lá tenda. Mas o filme vai mais fundo, e acaba por ser um exemplar retrato de indivíduos queer das classes mais desfavorecidas da cidade e do seu duro quotidiano.

Jason & Shirley (Stephen Winter, EUA, 2015)

Diria que é uma das grandes surpresas desta edição. O realizador norte-americano Stephen Winter pegou no documentário ‘Portrait of Jason’, que Shirley Clarke realizou em 1966, onde ela entrevista Jason Holliday, um entertainer negro e gay. Winter constrói aqui uma ficção do que terão sido os bastidores dessa tensa relação entre Shirley e Jason. Um filme magnífico que evita replicar o que já ficou do documentário original, lançando antes uma nova leitura sobre estas duas personalidades.

‘O Ninho’ (Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, Brasil, 2016)

Tendo origem numa série de quatro episódios, a mais recente longa-metragem da dupla brasileira Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, vem confirmá-los como dois dos mais interessantes e inovadores cineastas queer na nova geração desse país. Bruno parte à procura do irmão mais velho, em Porto Alegre, cruzando-se com uma série de gente e novas realidades, acabando por descobrir-se a si mesmo. É muito curioso o uso de um tom melancólico e soturno em todo o filme, ao mesmo tempo em que nos passa uma impressão de alegria silenciosa.

‘The Last of England’ (Derek Jarman, UK, 1987)

Da grande retrospectiva dedicada este ano ao realizador britânico Derek Jarman, destacaria este ‘The Last of England’. Para mim, este filme é um belo exemplo, não apenas da linguagem muito própria de Jarman, mas também da sua enorme liberdade estética e narrativa, que faz dele hoje ainda uma das grandes referências do cinema mundial.

Fotos (c) Jonathan Hyde & Direitos Reservados

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