Pedro Terror: um outro corpo à luz da lente

Num vistoso dia de Outubro, fui até ao Lost Lisbon, no Cais do Sodré, para passar os olhos pela exposição de Pedro Terror no novo espaço expositivo desta guesthouse, o Lost Collective. ‘Vera Cruz’ é, então, a materialização de momentos e circunstâncias do próprio.

A primeira impressão do Lost Collective é a imediata percepção de que estamos na sala de estar do próprio Lost Lisbon, um espaço vivo, com alma e um bom gosto que impressiona pela escolha do mobiliário. A amplitude do mesmo é canalizada, depois, para as paredes brancas que ladeiam as muitas janelas que percorrem os muitos metros quadrados desta sala que é muitas outras coisas para além do propósito com que foi edificada.

Nas tais paredes, ‘Vera Cruz’ impele-nos, desde logo, a olhar, a querer saber mais, a indagar sobre aqueles corpos, aquelas memórias, aqueles pedaços de várias vidas a preto e branco.

No fundo, estou mais interessado nas incapacidades da fotografia e nas possibilidades estéticas que elas me trazem.

ALMANAQUE - Pedro Terror - 'Vera Cruz'

«A estrutura do trabalho tenta de alguma forma emular o fluxo subconsciente de uma pessoa a viver numa cidade estranha e que, através das imagens, cria um entendimento dos espaços, relações e sentimentos. Além disso, tenta tratar das inviabilidades do dia-a-dia e da tentativa de criar memórias futuras».

«O que me interessa na fotografia em geral é a dimensão quase científica que a fotografia teve nos primórdios como mecanismo de reproduzir o real – dimensão frustrada e impossível de alcançar – versus o fotográfico como ilusionismo, como magia, como criação de realidades dissociadas da nossa. No fundo, estou mais interessado nas incapacidades da fotografia e nas possibilidades estéticas que elas me trazem».

ALMANAQUE - Pedro Terror - 'Vera Cruz'

«No início, não existia nada, só uma ideia vaga de tentar criar um discurso mais ou menos documental sobre o momento que estava a viver. As imagens foram aparecendo e criando uma estrutura nesse sentido. São pensadas para existir e serem vistas em conjunto, para serem como peças de um puzzle. Existem imagens que vivem melhor ilhadas e que são mais independentes do que outras, mas o que me interessa é sempre o conjunto».

ALMANAQUE - Pedro Terror - 'Vera Cruz'ALMANAQUE - Pedro Terror - 'Vera Cruz'

‘Vera Cruz’ é, como o próprio Pedro, um trabalho pessoal, ou seja, desce à profundidade do próprio e retorna à superfície para ser repartida pelos muitos olhos que as estudam como sendo suas, numa outra realidade. «Mesmo que todas as imagens relacionadas de uma forma mais explícita com a minha privacidade tenham sido orquestradas e não sejam naturais ou espontâneas, partem dessas situações e são recriadas até ficarem mais cruas, quase até perderem essa coisa de real e passarem a ser muito mais livres e abstratas».

Fotos (c) Soraia Martins

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