O RIO, de Jez Butterworth, pelos Artistas Unidos

Uma cabana sobre um rio. O Rio. Um Homem que é apenas um homem, uma Mulher que é uma mulher. E ainda uma e outra Mulher. Assim se descreve, a seu ritmo, esta peça de Jez Butterworth apresentada pelos Artistas Unidos neste início de temporada.

Nascido em Londres, em 1969, Butterworth regressou ao palco há dois anos com Jerusalém, uma comédia aclamada pela crítica que rendeu casa cheia no Royal Court Upstairs. Nesta sala-estúdio intimista de apenas 90 lugares estreou também O RIO, um texto trazido a luz pelos Artistas Unidos entre 14 de Setembro e 22 de Outubro, no Teatro da Politécnica.

ALMANAQUE - O RIO - Artistas Unidos

Numa cabana isolada, não sabemos exactamente onde, situada numa falésia sobre o rio, um Homem (Rúben Gomes) leva a namorada a conhecer este seu refúgio, incitando-a a entrar com o mesmo entusiasmo no mundo – que é muito seu – da pesca da truta-marisca. O entusiasmo e vivacidade com que este Homem fala e esperneia sobre este acontecimento é singular.

ALMANAQUE - O RIO - Artistas Unidos

Os objectos de que necessita para essa noite sem lua são pensados ao detalhe e essenciais para a tarefa. A demanda, contudo, vai mais além e desagua na tentativa de o Homem convencer a Mulher (Inês Pereira) a ir com ele pescar.

ALMANAQUE - O RIO - Artistas Unidos

Depressa percebemos que esta mulher é muito mais do que aparenta ser – ou, aliás, o seu significado na vida passada e futura do Homem não é o que parece. Depois de a Mulher sair de cena, é-nos apresentada, na entrada seguinte, a Outra Mulher (Vânia Rodrigues), sem que uma quebra no tempo ou no discurso seja visivelmente vincada. Esta volatilidade leva-nos a pensar que estamos perante as diferentes mulheres na vida deste Homem como se fosse apenas uma a quem ele declara o seu amor de forma constante – a personificação da sua solidão como premissa da vida na cabana em busca do momento perfeito para o inimaginável, mil relâmpagos a entrarem de rompante nas veias, a electricidade no coração que lateja na boca: pescar uma truta-marisca.

ALMANAQUE - O RIO - Artistas Unidos

O Homem reitera a ambas as mulheres que são únicas – ou, aliás, como se uma apenas fosse a sua razão para respirar, colocando a outra no lugar de “impostora”. Chegamos a um ponto na peça em que estas se confundem, deixando no ar um número absurdo de questões: quem é A mulher que ama verdadeiramente? Quem é a mulher do retrato que está dentro duma caixa debaixo da cama? De quem é o vestido escarlate deixado no armário? No final, talvez todas – ou nenhuma – questões são respondidas. Será que são mesmo?

Um trabalho incrível dos Artistas Unidos na interpretação irrepreensível deste Butterworth poético, contemporâneo, destemido.

Fotos (c) Jorge Gonçalves

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