‘O Fim da Noite’ de Cobramor – o poema que não o é

Chamam-lhe dois anos de escuridão, mas eu defino este período como quietude certeira. As Publicações NABO (Núcleo Apático das Brigadas do Ócio) retomam, então, a actividade com ‘O Fim da Noite’, uma edição que aglomera os pensamentos fluídos de Hugo de Oliveira, vulgo Cobramor, o «herdeiro do stream-of-conscience».

Toda a gente mete sangue e suor – lágrimas não – nisto e faz todo o sentido ser recebido dessa forma, como um objecto único. —Cobramor

Num entardecer distinto dos outros, numa das salas do espaço incrível que é o Rua das Gaivotas 6, consegui juntar os vários elementos que fazem parte, directa ou indirectamente, deste livro. De um lado do ringue, Miguel Palhinha e Ricardo Filho de Josefina, mestres editores por detrás da publicação em si. Do outro, Margarida Borges, Ricardo Martins e José Mendes, os responsáveis pela belíssima capa pintada à mão e reproduzida cem vezes com a mesma delicadeza gráfica – tudo manualmente, claro está. Ao centro, no coração que é também um ventre ampuláceo de escrita livre, está Hugo de Oliveira, «mais desconhecido como Cobramor».

ALMANAQUE - 'O Fim da Noite' de Cobramor | Publicações NABO | DESISTO

As seis edições das Publicações NABO

Não é de estranhar que este ‘O Fim da Noite’ faça levantar cabeças e fixar olhares, já que a sua concepção e posterior concretização material se afasta do que vemos diariamente no universo editorial. «A minha cena nunca foi muito trabalhar com editoras grandes – suponho que eles também não queiram trabalhar comigo. É um desinteresse mútuo».

Se há algo que Cobramor quer dizer, Cobramor vai dizê-lo as vezes que forem necessárias ou, quem sabe, nenhuma que favoreça outra pessoa que não ele ou aquilo em que acredita. Poesia é, também, uma posição literária descontextualizada do que professa. «A maneira que melhor descreve como consigo e gosto de trabalhar, em termos de escrita, é fazê-lo ao estilo de James Joyce ou Jack Kerouac – eles sentam-se, regurgitam para o papel e editam. Quem me conhece sabe que eu sou tipo locomotiva: vai tudo à frente. Tinha de lhe dar um nome, então chamei-lhe poesia». Quis que fugisse dos cânones da poesia dita tradicional e permiti-me chamar-lhe poesia. Para mim, é poesia que corre nestas páginas, a elevação derradeira das ideias que se escapam para o papel e se impingem no sangue.

Esta edição limitada a cem exemplares traz à tona aquilo que todos nós – ou, pelo menos, alguns – ambicionam: guardar um objecto único, singular, isolado na sua essência. A DESISTO surge aqui como instrumento de idealização deste ‘O Fim da Noite’, respondendo, enfim, ao desafio de criar algo que fugisse, de certa forma, à produção digital completa e que incorporasse métodos de DIY, por exemplo, um background que liga todos os elementos deste projecto graças ao punk/hardcore e aos «fanzines, demos e discos de 8 polegadas, que é uma coisa impensável», reitera Cobramor.

ALMANAQUE - 'O Fim da Noite' de Cobramor | Publicações NABO | DESISTO

DESISTO, Publicações NABO e Cobramor {não necessariamente por esta ordem}

Com a ajuda preciosa de todas as mãos que conseguissem encontrar, a DESISTO conseguiu pintar à mão os cem exemplares, cada um dignificando o conceito de todos diferentes, todos iguais graças à texturização com características distintas que cada um dos exemplares apresenta.

«Houve sempre uma ligação entre nós. Tornou-se muito fácil fazer isto porque confiamos imenso uns nos outros e já nos conhecemos há imenso tempo. A grande confiança que nos une, o bem-estar e o à-vontade foram coisas que tornaram isto possível», refere Ricardo, das Publicações NABO. Miguel completa: «as reacções têm sido muito positivas, o que nos deixa satisfeitos e com vontade de continuar a fazer o que estamos a fazer, porque, de certa forma, valida a nossa viagem».

Na era totalmente digital em que todos vivemos, este refresco surge em boa hora e mostra-nos que ainda é possível comprar objectos coleccionáveis sem que isso se torne tabu ou uma raridade. O próprio Cobramor admite: «Sou um gajo que não escreve no computador – escrevo sempre à mão. Para mim, quanto mais velha guarda, melhor. Não me revejo em produções em massa, acho isso aborrecido a todos os níveis. Aliás, acho que toda a gente acha isso aborrecido, tanto que, hoje em dia, derivado da Internet ou não, não há quem não queira ser produtor além de consumidor de cultura».

Resta-nos, enfim, mergulhar nesta noite que acaba e despoja e se despe e morre e cessa.

Fotos (c) Soraia Martins

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