NOS Primavera Sound: o que não queremos esquecer

Já lá vai um par de meses, mas aqueles três dias mágicos não nos saem da cabeça. O NOS Primavera Sound deste ano chegou, venceu e não fez prisioneiros — talvez só aqueles que se prendem ao chão e prometem não mais partir de um dos recintos mais bonitos de Portugal, o do Parque da Cidade do Porto.

ALMANAQUE — NOS Primavera Sound 2017

Run the Jewels

O primeiro dia, ainda que curto, satisfez. Facto: os Run the Jewels encheram-nos o coração de tanto amor que despejaram por um público sedento de tudo no Palco NOS. Ei-nos, de braços no ar, de movimentos que se assemelham a várias danças, mas que nem de perto se encostam ao swag de Killer Mike e El-P.

Saltámos e entoámos o que conseguimos, com todas as forças, com todos os fôlegos. ‘Nobody Speaks, Nobody Gets Choked’, ‘Lie, Cheat, Steal’, ‘Close Your Eyes (And Count to F**k)’, ‘Legend Has It’ e outras tantas que fizeram da primeira noite uma experiência de hip hop que serve para todos os gostos, todos os corpos, todas as malhas.

ALMANAQUE — NOS Primavera Sound 2017

Flying Lotus

Flying Lotus chegou ao Palco Super Bock com vontade de ficar — e nós agradecemos. Não é para todos, reconhecemos, mas tem tudo para nos caçar o espírito e fazê-lo fluir e esvoaçar por entre as texturas visuais que se empurravam atrás da sua mesa de acção. Por vezes destorcido e caricato, a opinião de quem gostou é unânime: Flying Lotus terá de regressar.

ALMANAQUE — NOS Primavera Sound 2017

Justice

Justice, por seu lado, incendiaram o Palco NOS já na hora de fechar o dia. ‘D.A.N.C.E.’ veio depois de ‘Safe and Sound’ mas serviu para acordar quem já se encostava discretamente ao bar. O NOS Primavera Sound acordou e o duo francês aproveitou o andamento: ‘We Are Your Friends’, ‘Genesis’, ‘Phantom’ e tantas outras que nos obrigaram sentir o movimento com o corpo, as ondas magnéticas, o rock electrónico, tudo bem misturado num cocktail estridente, ainda que já algo visto. A cruz, imponente, marcou presença e fez-se acompanhar de um jogo de luz pomposo.

ALMANAQUE — NOS Primavera Sound 2017

No segundo dia, o pôr-do-sol trouxe consigo a rainha de voz imponente, a deusa do coração nas mãos, Angel Olsen. My Woman é o álbum mais recente e o motivo forte da sua vinda ao NOS Primavera Sound. Delicada mas intensa, Olsen deixou-se levar pelo lusco-fusco e encantou os amantes mais distraídos. ‘Shut Up and Kiss Me’ arrebate-nos, ‘Sister’ atira-nos ao chão, o concerto inteiro deixa-nos em carne viva perante esta trovadora dos nossos tempos — será assim mesmo ou este anjo está de visita de outras épocas, outras vidas?

Bon Iver chegou e as 30 mil pessoas que assistiam renderam-se a esta figura carismática que transporta consigo uma alma velha em corpo quase-novo. Justin Vernon, assim é a sua graça, recorreu ao encore para entoar aquela que lhe trouxe a fama, ‘Skinny Love’, do For Emma, Forever Ago, a causa da sua maleita emocional. Em dez anos de Bon Iver, muita coisa mudou, a sonoridade expandiu, trouxe arranjos electrónicos, sintetizadores, deixou crescer uma alma experimental. Foi com este novo rosto que Bon Iver conquistou este público imenso e que o fez ficar até ao fim, àquele encore que todos esperávamos, de uma forma ou de outra.

ALMANAQUE — NOS Primavera Sound 2017

Nicolas Jaar

Nem todos conseguem compreender Nicolas Jaar e ele não se importa. Está ali por nós, mas também muito por ele, para mostrar o que lhe cresce por dentro e escorre para o mundo que o quiser escutar. Completamente sozinho — estaria? — Jaar invade-nos o peito com os seus sintetizadores bem calibrados, obriga-nos a mexer o corpo sem batidas que cheguem suficientemente para isso, mas que, ao rebentarem, nos sacodem de dentro para fora, de fora para dentro. A atmosfera é pesada e é assim mesmo que tinha de ser. Fechou o Palco NOS com um remate sublime.

ALMANAQUE — NOS Primavera Sound 2017

Nicolas Jaar

No terceiro dia, as atenções viraram-se para a nostalgia mais cedo do que se previa. Ainda o dia vai a meio e já se escuta vou sentir falta distomas ainda há tanto para ver e ouvir, penso. Se houve coisa que nos puxou a atenção toda para o Palco ., essa coisa chama-se Death Grips.

A monstruosidade deste concerto deteve-se na ausência de intervalos entre faixas. Será Stefan Burnett, vulgo MC Ride, um ser espiritual que não perde o fôlego? Acreditamos que sim. Este ‘hip hop experimental’, com todas as aspas possíveis, vai além do humanamente possível e combina sonoridades que dificilmente veríamos em harmonia, o thrash, o death metal, o ritmo, o industrial. Não mais recuperaremos disto.

ALMANAQUE — NOS Primavera Sound 2017

Death Grips

Aphex Twin fechou o último dia com um adeus muito ao seu jeito. Não lhe chamemos concerto, mas antes experiência, acontecimento, viagem. Aqui não há limites, não há barreiras, sejam visuais ou sonoras. Aphex Twin é o pai da electrónica ácida que nos corrói por dentro e desfaz as vísceras.

O ambiente que aqui se viveu é de desconfiança e fascínio, genialidade e medo, até. Os efeitos visuais de que se serviu causaram furor entre este público faminto por um fecho de festival alucinante — e Aphex Twin não desiludiu.

Fotos (c) Hugo Lima

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