A Noite da Iguana, de Tennessee Williams

Em cena no palco do São Luiz, em Lisboa, está A Noite da Iguana, a peça de Tennessee Williams protagonizada por Maria João Luís, Nuno Lopes e Joana Bárcia e encenada por Jorge Silva Melo. Hoje, tal como em 1961 aquando da sua estreia na Broadway, somos arrebatados da pequenez das cadeiras para entrar na grandeza complexa da essência humana.

ALMANAQUE - A Noite da Iguana - São Luiz Teatro Municipal

É a década de 1940 na costa mexicana do Oceano Pacífico. Enquanto do outro lado do globo os povos se debatem numa perpétua guerra, por aqui os norte-americanos vêm fazer excursões para expiar desejos ocultos e dar ao corpo a alegria que lhe é negada pela moralidade dos costumes e pela suposta solidariedade para com aqueles que sofrem às mãos dos ditadores europeus. À parte dos hotéis mais procurados e do rebuliço das cidades, ergue-se num ermo entre o arvoredo o Costa Verde, uma rasca casa de hóspedes propriedade de Fred Faulk e gerida agora pela sua viúva, Maxine.

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Tão típico do karma das pensões e hotéis baratos, também ao Costa Verde o destino leva tudo o que é decadente: ao grupo de amigos alemães ali hospedados e aos indolentes empregados que Maxine contratou, juntam-se-lhes o reverendo Lawrence Shannon, o grupo de senhoras da igreja que o contratou como seu guia e Hannah e o seu avô moribundo, que têm pago as suas viagens com a venda dos quadros dela e com a declamação dos poemas dele.

Cada um traz consigo as suas memórias, os seus traumas e os seus vícios. Cada um tentará acalmar os seus demónios interiores, uns pela força, outros pela sedução, uns pela paciência, outros pela resignação. Todavia, todos sem excepção tentarão sobreviver mais uma noite para, de seguida, sobreviver outro dia e assim sucessivamente, no esforço de se libertarem e na ilusão de viver.

ALMANAQUE - A Noite da Iguana - São Luiz Teatro Municipal

É impossível ficar indiferente à tensão que se instala e que cresce dentro de nós quando assistimos à dramaturgia de Williams. E é impossível escapar-lhe ilesos quando é Jorge Silva Melo quem encena e conduz actores e público pelo caos emocional – porque cada emoção é explorada ao limite, sem medos nem pudores.

No decurso desta “noite”, existirá apenas o ali-e-agora e actores, enredo e personagens deixarão o palco para se tornarem dentro de nós vida: reflexões, suspiros, expectativas, conflitos, recordações. Mérito o do autor, que tão bem registou no papel as variáveis da condição humana, na multiplicidade de personalidades e de psicopatologias; mérito o de Jorge Silva Melo, que molda, tal plasticina ,cada palavra, e gesto, e reacção; mérito o dos actores, que se tornam “reais”; mérito o da cenografia, figurinos e sonografia, que fazem do exterior o nosso interior.

ALMANAQUE - A Noite da Iguana - São Luiz Teatro Municipal

A Noite da Iguana ficará em Lisboa até ao próximo dia 5 de Fevereiro, partindo depois para o Teatro Nacional São João, no Porto, e em Março para Almada e para Loulé.

Tradução: Dulce Fernandes • Elenco: Nuno Lopes, Maria João Luís, Isabel Munõz Cardoso, Joana Bárcia, Pedro Carraca, Tiago Matias, João Meireles, Ana Amaral, Pedro Gabriel Marques, Catarina Wallenstein, Américo Silva, João Delgado, Bruno Xavier, Vânia Rodrigues • Cenografia e figurinos: Rita Lopes Alves • Luz: Pedro Domingos • Som: André Pires • Coordenação Técnica: João Cachulo • Assistência de Encenação: Nuno Gonçalo Rodrigues e Bernardo Alves • Produção: João Meireles • Uma produção Artistas Unidos / SLTM / TNSJ
Fotos (c) Jorge Gonçalves

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