Sdds, Milhões de Festa 2016

O tempo saudoso de três dias – quatro para os mais audazes – mágicos em Barcelos plenos de sol, música e boas energias parece-me tão distante quanto seria de esperar: o Milhões de Festa raramente passa despercebido e este ano provou, uma vez mais, que os festivais não se medem aos hypes.

Há poucos como este, mesmo passado tantos anos desde a sua génese. É certo que a base é a mesma e a malta vem aqui para ver concertos e passar tempo com os amigos, mas é muito, muito mais do que isso. Atrevo-me a dizer: muito mais do que isso.

ALMANAQUE - Milhões de Festa (c) Telma Correia

Goat (c) Telma Correia

O Milhões de Festa é, para mim, aquele lugar mágico que corresponde a umas mini-férias merecidas e que nos permite abraçar a calmaria do meio que o envolve.

O Milhões de Festa é, acima de tudo, um turbilhão de influências, uma montanha-russa que te leva de um extremo ao outro em apenas algumas horas ou dias, dos Sons of Kemet aos Goat, dos Quelle Dead Gazelle aos Ho99o9. Das lendas vivas como os The Heads aos brasileiros Bixiga 70, que vieram directamente de São Paulo para esta ‘terrinha’ – como os próprios disseram – que é Barcelos, mas que também é, a bem da verdade, o centro do país nos últimos dias de Julho.

ALMANAQUE - Milhões de Festa (c) Telma Correia

Uma das novidades este ano foi a mudança do Palco Taina para o interior do recinto, alteração radical que – arrisco dizer – mudará o Milhões de Festa para todo o sempre. Ainda que guarnecido dos melhores rojões, vinho verde e outros manjares minhotos, o Palco Taina tinha um encanto especial que repousava no próprio local escolhido, paredes-meias com o Rio Cávado, proporcionando momentos de verdadeira contemplação sobre o muro que percorria este recinto intimista.

Sim, não sou de colocar os pés na piscina do Milhões – e nada contra quem lá passa os seus dias – por isso, o Palco Taina era aquele refúgio onde a música soava para além daqueles metros de terra e vegetação à beira-rio. Agora no interior do recinto, este palco trouxe algumas bandas que animaram as tardes quentes de Barcelos: Malandrómeda, Marvel Lima, Quelle Dead Gazelle, os veteranos Riding Pânico, Qer Dier, My Expansive Awareness e uns tantos outros.

ALMANAQUE - Milhões de Festa (c) Zita Moura

Quelle Dead Gazelle (c) Zita Moura

As noites são, como sempre, partilhadas entre o Palco Milhões e o Palco Lovers, cada um com os seus trunfos bem ordenados sem deixarem nada ao acaso. Sons of Kemet e Goat marcaram o primeiro dia, dia 22 de Julho, no palco principal, deixando The Bug como destaque no palco do fundo. O dia seguinte, 23 de Julho, recebeu três nomes de grande porte, ainda que de géneros distintos, no Palco Milhões. Falo-vos de Sun Araw, o projecto aclamado de new wave onírica de Cameron Stallones, The Heads, senhores do rock psicadélico nascidos em terras de sua majestade, corria o ano de 1990, e Bixiga 70, felizes e enérgicos num daqueles concertos que sabe como fechar um palco em grande estilo.

ALMANAQUE - Milhões de Festa (c) Zita Moura

Ho99o9 (c) Zita Moura

No Palco Lovers, Gaika hipnotizou uns e apagou outros, deixam o melhor da noite para Islam Chipsyconcerto que perdi e do qual me redimi na ZdB uns dias mais tarde -, que levou os seus amigos EEK para incendiarem o palco, segundo o que me disseram no dia seguinte. *lágrimas*

ALMANAQUE - Milhões de Festa (c) Telma Correia

Dan Deacon (c) Telma Correia

O último dia, 24 de Julho, domingo quase santo, deixou-nos dançar de todas as formas possíveis e imagináveis com El Guincho, no Palco Milhões, e, logo de seguida, com um intervalo bem merecido para dar uma espreitadela a Oozing Wound no Palco Lovers, chegou Dan Deacon e as suas manobras de diversão mescladas com uma electrónica quase pop quase goofy.

ALMANAQUE - Milhões de Festa (c) Zita Moura

Ho99o9 (c) Zita Moura

Mas seria no Palco Lovers que encontraria a banda que conseguiu reunir tudo aquilo que procurava num festival ecléctico e transversal como o Milhões: Ho99o9 – leia-se, Horror. Uma espécie de blend agressiva de hip hop com hardcore, um duo tão poderosa como seria de esperar, um baterista de técnica irrepreensível, saído de um universo metal sem que realmente o fosse, diríamos nós. Em cada um dos temas, os Ho99o9 deixaram-nos prostrados perante uma performance quase surreal, sem pejo, quase nociva.

ALMANAQUE - Milhões de Festa (c) Zita Moura

Ho99o9 (c) Zita Moura

Valeu por mais um ano de bons momentos, risadas e boa música, deixando no ar a vontade de viver uma e outra vez este Milhões de Festa que é de todos nós.

Fotos de capa (c) Renato Cruz Santos

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