Mariana Duarte Silva: da ideia à prática

PÓ-DE-ARROZ é o tributo merecido à sensibilidade e à força, à robustez que é ser mulher sem desprendimento do feminino, da candura, da destreza. É o elogio que faltava e que começa agora, aqui.

Mariana Duarte Silva é uma das forças motrizes por detrás do Village Underground Lisboa, um centro de indústrias criativas e de eventos, um projecto que importou de Londres dos tempos que lá passou com a (sua) Madame Management. Sabia, desde há muito, que queria ter o seu próprio espaço de eventos quando regressasse a Lisboa, e juntar o útil ao muito mais do que agradável passou a ser uma ideia a colocar em prática.

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Em 2009, propuseram ao fundador do projecto, Auro Foxcroft, e ele gostou da ideia. O mais difícil seria pôr de pé este plano de uma vida, mas Mariana não sabe o que significa cruzar os braços. «Foi um longo caminho entre arranjar o espaço físico – que foi o mais difícil –, o financiamento, o plano de negócios, os parceiros, a equipa, tudo. Essa dificuldade foi mais sentida porque, na altura, ninguém falava de cowork nem de autocarros empilhados. Era encarada como uma louca que chegou de Londres com um projecto que não interessava muito a ninguém, nem mesmo à Câmara Municipal de Lisboa ou a qualquer tipo de parceiro. Não desisti e continuei com a Madame Management a organizar as festas e os eventos e, em 2010, decidi marcar uma reunião com a Carris para apresentar o projecto e mostrar-lhes o que gostava de fazer. Foram os primeiros a darem-me a mão ao disponibilizarem dois autocarros para começarmos o projecto. Foi o pontapé de arranque: tinha dois autocarros, mas faltava-me sítio para os instalar. Bati em várias portas, mas nenhuma se abriu», conta.

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Em 2011, o caso mudava de figura quando o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, leu um artigo em que Mariana desabafava que tinha quase tudo e só lhe faltava o espaço. Isto foi o suficiente para receber uma chamada da CML: «Felizmente tinham-se virado para tornar Lisboa uma cidade global e criativa – era uma das estratégias da CML nesse ano – e decidiram pegar no projecto como bandeira, o que facilitou bastante as coisas. Assinámos um protocolo e, portanto, somos desde então co-organizadores deste projecto. É uma grande vantagem para a CML, pois pode apresentar Lisboa através do meu projecto e de outros que espelham como a cidade está focada também para as indústrias criativas, e é muito bom para mim porque tenho o apoio possível». Mais ou menos na mesma altura, recebeu uma proposta da Carris para arrendar o espaço da estação de Santo Amaro. Achou fantástico e aceitou. As coisas começaram a avançar e, entretanto, através do protocolo com a CML, entrou para a Start Up Lisboa, tendo conseguido uma linha de financiamento do Montepio que a ajudou a montar o Village Underground Lisboa. Os dados estavam lançados, só faltava construir a estrutura propriamente dita. «Foi o mais fácil, seis meses. Abrimos em Maio de 2014, finalmente».

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O Village Underground Lisboa não é um espaço qualquer e está em constante evolução. A principal preocupação é criar uma comunidade criativa em que todos cooperem e estabeleçam sinergias. Não se trata apenas de um espaço de trabalho em que as pessoas arrendam a mesa e vão para casa ao final do dia sem nada em comum.

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A ideia é que todos contribuam com know-how e experiência para se fazerem coisas novas. «O meu objectivo é ligar todas estas pessoas, e já demos as boas-vindas a muitas áreas distintas: Teatro, Arquitectura, Cinema, Literatura, Audiovisuais, Advocacia, um estúdio de som – do marido, Gustavo Rodrigues – e agora uns inquilinos novos da área de gaming. Temos também dois projectos de street food, o Focaccia e o Copenhagen Coffee Lab. Já tivemos um DJ que fez um álbum num dos contentores, e duas marcas de moda também já passaram por aqui. Conseguimos reunir um bom conjunto de peões das indústrias criativas, que é o que queremos».

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«Paralelamente, somos um espaço de eventos. Hoje, por exemplo, temos um evento do IKEA, mas no sábado passado organizámos o CARGO, um mercado com música, vendas, carros e comida, onde apareceram mais de 2 mil pessoas. No fim-de-semana de 11 e 12 de Abril, teremos o Village Yard, uma iniciativa nossa juntamente com o colectivo de arquitectos Projecto Warehouse, que está a implementar um espaço verde aqui no Village. Começaram em Março com a construção de um deck de madeira para a esplanada e, em Abril, vão passar para a fase de plantas e flores. Para isso, vamos organizar um evento e convidar as pessoas a virem com as suas famílias para plantarem as árvores. Também temos os Domingões, que é quando confeccionamos um prato de gastronomia portuguesa na Cafetaria e deixamos os insufláveis para as famílias virem com as crianças. Em Maio, temos a nossa festa de aniversário e começaremos, também, com os finais de tarde de sexta-feira e de sábado com DJs. Não temos o calendário fechado para o ano todo porque as coisas vão surgindo, há sempre propostas e ideias a chegarem. A grande novidade é que vamos ficar com este armazém aqui ao lado para fazermos as festas de Inverno».

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Quando questionada sobre o que significa estar à frente de um projecto desta dimensão, Mariana não hesitou: «Isto é o que sempre quis fazer, gerir um espaço, que não é só meu, mas onde tenho absoluta liberdade para fazer o que eu entendo ser bom para Lisboa, para o público e para mim. É um orgulho enorme ter conseguido pôr isto de pé com a ajuda do meu marido e da minha equipa. Para além de ser um orgulho, é um desafio gigante, pois todos os dias surgem problemas, todos os dias tenho de ultrapassar um obstáculo, maior ou menor. Há que ultrapassá-los e pensar no que é bom para o Village e para as pessoas que vêm aqui».

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E quais os momentos que mais a marcaram até hoje neste percurso de edificação do Village Underground Lisboa? A resposta está na ponta da língua e não deixam dúvidas, todos os momentos são importantes. Mas nem por isso deixou de realçar alguns dos pontos altos: «A festa de lançamento foi provavelmente o primeiro momento de orgulho e que me marcou imenso. Antes disso, foi o facto de ter conseguido atrair algumas pessoas, que admiro muito e com quem sempre quis trabalhar, como é o caso do Vhils e da Underdogs. Conheci-o em Londres – chegámos ao mesmo tempo –, acompanhei o trabalho dele e acabei por organizar a festa de inauguração de uma das suas primeiras exposições. Ele conhecia bem o Village em Londres, chegámos a organizar eventos de street art lá e cá e, quando foi a hora de abrir o Village, coincidiu com uma instalação da Underdogs aqui. A fachada norte foi pintada por um artista da galeria, o AKACorleone, e que já conhecia o espaço desde o início. Foi um clicar de vontades perfeito. Outro grupo de pessoas que admiro e com quem sempre quis trabalhar é a Enchufada. Acompanhei o sucesso em Londres e foi bom ter chegado cá e saber que eles estavam interessadas em fazer coisas connosco. Quando organizámos o Global Village no ano passado, foi uma residência de que me orgulho bastante. Um outro momento foi mesmo a concretização do CARGO, que quase não acontecia, mas ainda bem que aconteceu, porque correu muito bem. Voltar a ver o espaço com quase 2 mil pessoas, filas à porta, enfim. Para finalizar, a entrega do prémio European Entrepreneurial Region 2015, que reconheceu Lisboa como cidade criativa e empreendedora, foi um momento que marcou o Village pelas melhores razões».

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