Mariana, a miserável: acto ou efeito de atrair desgraças e desenhá-las

Conhecer a Mariana é tirar a barriga de misérias no que toca a ilustrações inusitadas, reais e muito cruas que acabam por se tornar um pedacinho de cada um de nós. São infinitas as diferentes paisagens que habitam o ser humano, e Mariana, a miserável sabe como desenhá-las e passá-las para o papel.

ALMANAQUE - Mariana, a miserável

Vamos começar pelo princípio: como é que a miséria entrou na vida da Mariana? «Tudo começou na faculdade a partir de um fanzine que fazia com uma amiga. O fanzine chamava-se ‘A Miserável’, nome que adoptei quando terminei o curso, numa altura em que tinha um blog visitado apenas pela minha mãe, onde colocava os desenhos a tinta-da-china que ia fazendo por gosto».

Desenhar, diz, não estava nos seus planos como emprego estável e duradouro. Era algo de que gostava, mas não planeou um futuro porque, verdade seja dita, quem é miserável não pensa nestas coisas boas que a vida nos vai destinando. Até que, num repente, se dá a reviravolta. «Depois de um estágio pouco satisfatório em Barcelona, decidi não trabalhar mais como designer e, como não tinha nada a perder, apostar naquilo que gostava mais de fazer. Entretanto passaram alguns anos até levar isto mais a sério e perceber a importância e influência deste nome no meu percurso».

ALMANAQUE - Mariana, a miserável

Partiu de Leiria aos 18 anos, altura em entrou na faculdade, passou três anos nas Caldas da Rainha a estudar Design Gráfico, seis meses em Barcelona a estagiar num estúdio de design e quatro meses em Lisboa, culminando no Porto, onde permanece há quase sete anos. «Foi um acaso que me trouxe aqui. O Porto tem a particularidade de fazer com que as pessoas se sintam em casa muito facilmente – e muito rapidamente também – e foi isso que aconteceu comigo. Apesar de prever que irei para Lisboa em 2017, o meu coração ficará um bocadinho aqui».

Tudo o que sinto que pode gerar boas histórias é combustível para desenhar

À luz da realidade de quase todos os artistas, Mariana refugia-se em casa para desenhar por longos períodos, não deixando que isto, contudo, afecte a sua relação íntima com a cidade, pelo contrário. A concretização das ideias advém de uma absorção incrível de tudo o que a rodeia, como seria de esperar e como podemos discorrer do seu trabalho.

ALMANAQUE - Mariana, a miserável

«Aqui [no Porto] aprendi que é muito importante gostarmos muito do sítio onde vivemos e que, sem nos apercebermos, isso acaba por ter algum impacto no nosso universo imaginário. O meu trabalho (não comercial) parte da introspecção sobre a minha própria miséria, mas também passa pela miséria alheia, seja de amigos, de desconhecidos em salas de espera, de personagens de livros, etc. Tudo o que sinto que pode gerar boas histórias é combustível para desenhar».

ALMANAQUE - Mariana, a miserável

Sem pensar em regras ou linhas muito rígidas, Mariana deixa-se levar pelo instinto e considera, acima de tudo, que o seu processo vai evoluindo ou mudando consoante o trabalho que tem em mãos e a forma como se relaciona com ele. «Sinto que, além de não ser estanque, o processo “cresce” comigo à medida que vou errando e aprendendo. A minha rotina (se é que se pode chamar assim) é acordar cedo, resolver primeiro as respostas aos e-mails, os orçamentos e idas aos correios e só depois começar a desenhar. Tento não prolongar o trabalho até muito tarde, pois não trabalho tão bem à noite – e às vezes tento também não trabalhar aos fins-de-semana – e ao domingo costumo programar os posts na minha página de Facebook».

ALMANAQUE - Mariana, a miserável

Mas nem só de solidão se faz uma vida miserável, e Mariana tem interiorizado esta ideia através de exposições em conjunto com artistas cujo trabalho a inspira. «É compensador e resulta muito bem. Comecei pela ‘Another History’ na Fabrica Features Lisboa com a Maria Imaginário, em 2013; dois anos depois fizemos a “Eu tenho dois amores” na Abysmo; no final de 2015 fiz, com o Júlio Dolbeth, a “Lonely Hearts” na Mundano, exposição que decidimos repetir com novos trabalhos na Miscelanea BCN, este ano».

ALMANAQUE - Mariana, a miserável

Adianta ainda que está em conversações com a Maria e o Júlio no sentido de continuar com este caso de «adultério feliz». Para além disto, Mariana está a terminar um fanzine para a Ó! Galeria, bem como a capa para um caderno que a beija-flor vai lançar em Novembro; até ao final do mês vai terminar os desenhos de um fanzine para a editora e galeria online SSE Project; está também a desenvolver um padrão para forros da marca de sapatos Labuta e, no próximo mês, vai dar aulas na ETIC. Conseguem acompanhá-la?

Fotos (c) Mariana, a miserável

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