Kruella D’Enfer: do traço à cor expansiva (ii)

PÓ-DE-ARROZ é o tributo merecido à sensibilidade e à força, à robustez que é ser mulher sem desprendimento do feminino, da candura, da destreza. É o elogio que faltava e que preserva agora, aqui.


Se é de traço singular que falo hoje, mal de mim se me sai da memória o que mais me alicia visualmente, o de Kruella D’Enfer. No início, o caminho fazia-se experimentando e testando tudo o que pudesse, de paredes a escultura, passando por pedaços de madeira. Agora, a identidade já acertou compasso e quem a segue reconhece-lhe as linhas e essencialmente as cores.

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Regressemos, então, aos inícios. «Costumava ter aversão a fazer coisas no computador. Achava que tinha de fazer tudo à mão porque tinha mais controlo, mas hoje já sei trabalhar melhor com essa ferramenta. Isso é óptimo para mim porque tanto posso fazer trabalhos comerciais, em que tudo o que me pedem eu consigo resolver, como, se tiver uma exposição, tenho um leque mais alargado de ideias e coisas que posso trabalhar».

A plataforma que melhor se dissemina por uma cidade é a parede transformada em mural. O último trabalho que desenvolveu neste âmbito foi ‘Gigantes do Mar‘, um mural magnífico nos estaleiros navais da Lisnave, em Almada, a convite da C. M. de Almada.

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No final de contas, todos os projectos têm o seu quê de memorável, mas podemos sempre destacar um ou outro, como o ‘Tour Paris 13‘. «Convidaram-nos para pintar um prédio devoluto em Paris que iria depois ser demolido. Cada divisão tinha um artista, como o Vhils e o Pantónio, e fizeram um vídeo e um livro. Lembro-me que, antes de ser demolido, o prédio tinha filas de doze horas para entrar. Tiveram de prolongar a demolição. Este foi um dos primeiros em que colaborámos os dois [com o AKA Corleone], eu fazia um bocadinho, ele fazia outro bocadinho e misturámos tudo. Foi muito bom também por causa disso».

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A arte na rua é efémera e transporta consigo estas mágoas. Há artistas para quem o desvanecer de uma obra lhes traz benefícios para o resultado, mas para Kruella as coisas não são bem assim: «Faço o trabalho para que fique especificamente com aquelas cores e aquelas formas, se a tinta começa a queimar, a escurecer ou a saltar, já não é o meu trabalho. Mas lido com isso normalmente e é algo a que nos habituamos porque faz parte de trabalhar nas ruas».

«Poder fazer trabalhos para mim, para uma exposição ou para merchandising, por exemplo, dá-me liberdade e motiva-me».

Os trabalhos comerciais que tem vindo a desenvolver com diversas marcas também fazem parte de um orgulhoso portefólio de novas técnicas e ferramentas. «Por um lado, gosto muito de fazer exposições e de ter um tema para me guiar nas ideias, mas, por outro, é muito importante para mim esta parte de trabalhos comerciais porque, se não fosse isso, não fazia coisas como pintar um carro, por exemplo. Para mim é sempre um desafio quando abro o email e vejo coisas como “tens de pintar um carro”. Ainda para mais tinha de usar tintas que saíssem facilmente porque não era uma pintura permanente. Passei o dia à procura de tintas para o projecto e lá encontrei uns sprays de giz que nunca tinha usado – ou seja, por causa deste trabalho descobri um material novo e conseguir superar o desafio».

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Quem conhece a Kruella identifica naturalmente as características, os contornos e as cores que nos trespassam sem que demos conta. Uma identidade – por mais ímpar ou modesta que seja – não deixa de o ser apenas porque não a reconhecemos em nós, mas os seguidores de um artista ou tendência não deixam por mãos alheias essa arte de admirar as coisas bonitas.

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«Fui construindo a minha identidade ao longo do tempo. Quando estava no liceu, em Artes, copiava trabalhos a óleo de outros artistas, não tinha propriamente um traço. Mas, quando comecei a desenhar com o Pedro, às vezes copiava o que ele fazia, inspirava-me imenso. À medida que fui conhecendo outros artistas e investigando muito esta área, juntando, ao mesmo tempo, os meus gostos pessoais, a minha identidade começou a ligar-se a elementos mais surreais e aleatórias, figuras não identificáveis, místicas, fora do normal».

Fotos © Ágata Marinho

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