Kruella D’Enfer: paredes-meias com o abismo multicolor (i)

PÓ-DE-ARROZ é o tributo merecido à sensibilidade e à força, à robustez que é ser mulher sem desprendimento do feminino, da candura, da destreza. É o elogio que faltava e que preserva agora, aqui.


Kruella D’Enfer dá o mote para o alter-ego que a conduz e caracteriza neste universo tão vasto e dilatado que é a street art. Cores vivas e sem fim à vista, personagens que se insurgem de fantasias obscuras, camadas de energia e simetrias que não deixam margem para desvios fazem parte do seu trabalho.

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Nascida em 1988, Kruella D’Enfer – Ângela Ferreira de sua graça – tem vindo a desenvolver uma ainda curta mas sólida carreira na cena da ilustração, da pintura e, claro está, da street art. Mas, quando tudo começou, quando o bichinho finalmente mordeu, nada faria pensar que as coisas iriam chegar onde chegaram.

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«Relacionei-me com este universo das artes no liceu. Aí nem percebia que podia tomar este caminho depois de acabar o liceu e escolher, por exemplo, um curso de ilustração, não sabia mesmo, mas surgiu aí o interesse. Sabia pintar e gostava bastante, mas, quando chegou a altura de escolher um rumo na minha vida, foi tudo muito confuso e a única coisa que queria era vir para Lisboa. Tondela era um sítio muito pequeno e muitos dos meus amigos também tinham vindo para Lisboa, e isso foi outro motivo forte para vir para cá, nem interessava bem para fazer o quê».

«Acabei por escolher um curso que estava mais ou menos relacionado, Cinema, Vídeo e Multimédia, porque achei que poderia ser boa em Animação. Mais tarde percebi que não e desisti do curso seis meses depois. Voltei para Tondela e entrei outra vez numa espiral de não-quero-estar-aqui, isto em 2007. Aí decidi ir a Londres, porque tenho lá família e podia ser uma outra oportunidade para descobrir o que queria fazer. Trabalhei no café da minha tia por uns tempos, cerca de seis meses, mas acabei por me aperceber que devia voltar para cá e escolher um outro curso. Descobri o curso de Design de Ambientes, nas Caldas da Rainha, e achei que podia ser interessante seguir essa área de Design de Interiores. Entrei em 2008, mas passado um ou dois anos voltei a aperceber-me que não era bem aquilo».

Kruella gostava da faculdade e fez lá amigos, mas houve uma pessoa que viria a mudar a sua vida em mais aspectos do que imaginava. «Conheci lá o Pedro (AKA Corleone) e, nessa altura, ele era designer gráfico, já tinha trabalhado em agências, e mostrou-me todo um universo que eu não conhecia. Não tinha aquele feeling de “quero ir trabalhar para uma agência e o design gráfico interessa-me especificamente”, mas já tinha este interesse pela ilustração e eu comecei a aprender isso com ele.

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Começámos a desenhar os dois e, apesar de já ter bases, nunca desenhei propriamente, fazia um desenho uma vez por mês, e era algo só para mim e nem via aquilo como profissão. O Pedro ajudou-me muito nisso e começámos os dois a ilustrar mais e fomos descobrindo revistas e galerias que podíamos “chatear” para mostrar o nosso trabalho. Houve uma altura em que as pessoas começaram a dar feedback positivo dos meus trabalhos e a coisa começou por aí».

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Porquê Kruella? «O pseudónimo do Pedro era um vilão e Kruella pareceu-me um bom par. O nome em si, graficamente, também funcionava muito bem, experimentei pintá-lo com lata de spray e gostei do resultado».

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Depois do nome alinhavado, surgia a vontade de fazer mais e mais, principalmente contactar galerias, marcas e revistas de forma a promover o trabalho o mais possível. «Foi em 2009 que comecei a fazer isso. Quando descobri que gostava mesmo deste rumo, decidi sair da faculdade e dar mais um desgosto aos meus pais [risos] e explicar-lhes que estava a tentar fazer uma coisa de que realmente gostava e que desta vez iria valer a pena. Eles compreenderam e deram-me mais uma oportunidade. Foi difícil no início, mas agora acredito que têm vindo a ficar gradualmente felizes com a minha decisão».

«Não posso ser tão insegura nestas coisas. Se tiverem de correr mal, correm. Tenho de arriscar. Vale sempre a pena nem que seja pela experiência de viajar e de deixar a minha marca noutro sítio».

Banguecoque foi muito provavelmente o ponto de viragem na vida de Kruella D’Enfer. Depois de ter começado a pintar em fábricas abandonadas nas Caldas da Rainha com o AKA Corleone, o que possibilitou a aprendizagem de uma técnica nova e de passar o tempo de uma forma «engraçada e criativa», começou a perceber que o que fazia em papel conseguia passar para a parede. Graças à colaboração que mantinham com um zine de origem francesa, receberam um convite da organização de um festival de street art em Banguecoque, na Tailândia. «Quando vi o email pensei que era a gozar. Não acreditei logo no convite. O processo de troca de emails também demorou imenso, mas a um mês da partida recebemos a confirmação de que estava tudo preparado para irmos».

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«Em Banguecoque, tive de pintar um mural, coisa que nunca tinha feito antes. Não era assim tão grande, mas tive de usar uma grua sozinha pela primeira vez, tive de traçar tudo simetricamente com giz e depois foi preencher tudo. Adorei. Era um festival com artistas de todo o mundo e foi das viagens mais incríveis para mim. Tive oportunidade de conhecer pessoas e artistas que eu já adorava e nunca pensei estar ali no meio também a mostrar o meu trabalho».

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Quando chegaram a Portugal, as memórias da Tailândia falaram mais alto e a vontade de sair do país cresceu sem pudessem impedi-la. «Pensámos em comprar um bilhete de ida e ir para lá seis meses para ver o que dava. E fomos. Falámos com uma das pessoas responsáveis pela realização do festival que abriu uma galeria com residência artística porque vimos aí uma oportunidade. Ela aceitou logo e assim já tínhamos um motivo forte para ir. Ficámos na residência cerca de quatro meses. O espaço era incrível, tinha um andar só para dormir, no andar de baixo era o estúdio com tudo e mais alguma coisa à nossa disposição, e no rés-do-chão era a galeria. Tinha também um jardim e um bar, onde conhecemos imensas pessoas e outros artistas».

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