KCKLIKO ou os encantos da colheita consciente

Por entre texturas e folhagem de um verde infinito, Albane Chotard e Luís Moreno constroem e dão vida à KCKLIKO, projecto que respeita os desígnios da natureza e seus ciclos, espelhados nos arranjos conscientes e tão belos quanto os paraísos mais longínquos da nossa imaginação.

«O nome já existia há muito», explicam. KCKLIKO não é mais do que a transcrição fonética de ‘coquelicot’, que significa papoila, uma flor silvestre «espontânea, perseverante, mas de existência efémera» se for colhida. Uma palavra que muito facilmente associamos a fragilidade e a uma essência vulnerável – e que aqui se adapta nesta quase-perfeição indescritível.

ALMANAQUE - KCKLIKO - colheita consciente

Albane é a guardiã dos gestos que firmam e estruturam o ramo, deixando Luís como mestre da lente e derradeiro observador dos detalhes que merecem ser revistos e abrigados. Depois de se formar como florista, Albane veio para Portugal, onde trabalhou com um florista francês em Lisboa, algo que ainda durou algum tempo até decidir abrir a sua loja, também ela em Lisboa. «Funcionava de uma forma diferente das restantes: uma loja distinta em relação às existentes na cidade, mas tradicional na forma de venda das flores».

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Esta aventura durou três anos até Albane decidir romper com a sociedade, acabando por colocar as flores de parte, deixando-as renegadas para segundo ou nenhum plano. Entretanto, deu-se o reencontro com Luís, que intermitentemente a foi conquistando com flores, pois sabia que gostava. «Muitas vezes trazia os arranjos para casa e a Albane desfazia-os para fazer outra coisa, a tal ponto que, a determinada altura, deixei de lhe oferecer ramos e passei a oferecer-lhe só flores para ela fazer o que queria».

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«Muito rapidamente percebi – e a Albane também percebia, mas estava em negação – que o futuro dela tinha de passar pelas flores. Nos outros empregos que foi tendo era uma profissional excelente, muito dedicada, mas a vocação dela e o que faz com muita naturalidade é trabalhar com flores. Comecei, com alguma insistência, a pressioná-la para voltar a este mundo», diz Luís.

Como ser individual, Albane vivia já com uma série de preocupações a nível de produtos biológicos e havia, até, feito algumas opções de alimentação vegetariana. Tendo pais ecologistas ainda activos, o dia-a-dia passou a direccionar-se mais para essas preocupações ambientais que passaram a fazer parte da vida de ambos. É aqui que entra o comércio e a produção de flores: «Deixei de comprar flores e, aos poucos, já não tínhamos nada em casa. Perante esse impasse, pensámos que não íamos conseguir concretizar, colocando, mais uma vez, este projecto de parte».

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Procurávamos uma casa com jardim e acabámos por encontrar um jardim com uma casa.

A história da KCKLIKO passa essencialmente por uma consciência premente em relação ao cuidado com as plantas nos seus planos naturais de crescimento e de procriação, o que faz com que nem as ervas ditas daninhas sejam recusadas ou postas de parte na concepção de um ramo. O duo acredita na sustentabilidade de um projecto como este – que rapidamente passou a ser um estilo de vida – e que cada pedaço de natureza tem o seu papel.

Muito antes do nascimento da filha de ambos, Violetta – cujo nome não poderia ser outro, pelas razões certas – rumaram em busca de uma casa que lhes trouxesse o espaço verde de que tanto precisavam para dar seguimento à KCKLIKO e ao novo paradigma de colheita consciente e de monitorização das espécies e variedades que cresciam livremente nos vasos que mantinham no terraço.

«Procurávamos uma casa com jardim e acabámos por encontrar um jardim com uma casa. O jardim não era como se vê agora, era muito mais despido. Entretanto, começámos a pensar em como poderíamos trabalhar com flores de novo, que alternativas é que iríamos encontrar para estarmos em paz com as nossas preocupações. Começámos por idealizar o projecto, pusemos logo de parte as flores importadas e concentrámo-nos em flores nacionais».

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«A primeira vez que visitámos esta casa – e que foi um dos factores decisivos – foi na altura dos íris, a espécie a que vocês aqui chamam lírios, mas são coisas diferentes, e estes eram de uma cor que nunca tínhamos visto na vida, talvez cor de vinho, um tom acastanhado. O jardim convenceu-nos».

Esta é a casa de todos os amores, em que cada pormenor é genuíno e simultaneamente pensado, com um propósito, um sentido. Os recipientes, os jarros transparentes e os frascos de büchner fazem as delícias de quem aqui entra, com raízes, fragmentos de flores e de plantas variadas, um laboratório sem igual que se desenvolve à velocidade das estações. Uns passos adiante, passando a sala e a cozinha, está o recanto mais luminoso da casa: o jardim de traços selvagens, em que nenhuma espécie é desprezada ou deitada fora, em que a convivência entre os seres verdejantes perfaz o ponto alto deste espaço confinado à felicidade.

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É também aqui que Albane e Luís fazem as suas experiências e permitem que as estações desempenhem as suas funções, mas a falta de algumas variedades fê-los procurar outros meios onde pudessem colher sem consequências graves e sem recorrer à comercialização industrial.

«Percebemos que os nossos vizinhos tinham jardins dianteiros com algumas espécies diferentes que nos interessavam e surgiu a ideia de serem os nossos fornecedores. Há cerca de ano e meio, dois anos, começámos a experimentar falar com os vizinhos – a Albane é que tratava dessa parte. No início, não tínhamos nada para mostrar, mas depois começámos a fotografar os nossos arranjos e a mostrar aos vizinhos, e a reacção foi sempre de muito entusiasmo, achavam a ideia muito bonita, ninguém queria nada em troca. Alguns já nos conhecem, porque já aqui vivemos há cerca de oito anos, e então faz parte da solidariedade entre vizinhos».

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Graças a esta relação com os vizinhos e a tarefa contínua de explorar o que de melhor ou mais certo os seus jardins têm para oferecer, aperceberam-se de que o seu próprio jardim tinha um fim e que não poderiam retirar plantas e flores a seu bel-prazer. «Depois de nos apercebermos disto, começámos a pensar em formas de colmatar esta falha e optámos por conceber arranjos sem flores, por exemplo. Num ramo, o destaque vai usualmente para as flores grandes, as flores core, o centro do arranjo. Quando não as tens, o teu olhar começa a ir para outros sítios. Os verdes, tanto do nosso jardim como do dos nossos vizinhos, passaram a ter mais atenção da nossa parte».

ALMANAQUE - KCKLIKO - colheita consciente

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«Normalmente, os verdes não têm um papel tão predominante, por isso começámos a direccionar a nossa lupa para essas espécies e seus detalhes. Concluímos que há um sem número de plantas com potencial decorativo a nível de texturas e de formas que são descuradas por várias razões: são pequeninas e trabalhosas de encontrar e de manipular. Percebemos que conseguíamos ter muita riqueza no que fazíamos à custa de pequenos pormenores e começar a construir arranjos sobrepondo detalhes e texturas, umas com folha de aspecto mais suave, outras com um aspecto mais agressivo e, conjugando isto tudo, concluímos que havia aqui um terceiro caminho a explorar».

O nosso jardim já não chega para toda a variedade que gostaríamos de abraçar.

Em termos do projecto em si, estabeleceram algumas prioridades: comprar algumas flores – simplesmente porque não conseguem fugir a isso, mas recorrendo a produtores nacionais e tão locais quanto possível -, continuar a recorrer às flores do jardim e do meio à sua volta e, por fim, visitar os espaços verdes da cidade que, por norma, são abandonados e carecem de supervisão.

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«Há um autor com o qual nos identificamos muito, Gilles Clément, um jardineiro francês, que fala exactamente de uma terceira paisagem, que não é o espaço cultivado nem o espaço selvagem, mas o espaço não gerido. As franjas e os espaços intermédios que existem na confluência dos dois anteriores. No espaço urbano, embora as plantas existam de uma forma estática – estão todas implantadas num determinado local e não se movem daí – a nível de espécie e de sementes viajam imenso. Mesmo no meio urbano, há sementes em todo lado e, mal encontrem um sítio qualquer onde se possam instalar, seja entre duas pedras da calçada, seja num bocadinho de terra, as plantas florescem. A nível de biodiversidade, são espaços extremamente ricos. Começámos a explorar e a descobrir os sítios mais improváveis onde é possível encontrar pormenores e coisas imensamente pequeninas. O nosso jardim está sempre a crescer por causa disso».

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Após um período de aprendizagem sobre questões mais técnicas e relacionadas com empreendedorismo, planos de negócio e todas as burocracias de valor acrescentado, a KCKLIKO ganhou vida e começou, aos poucos, a transformar-se no que vemos hoje em dia, mas há outros voos na calha.

«Mas tudo isto não nos chega. Cada vez mais precisamos de variedade e estamos a pensar começar a produzir para nós. Apesar de termos muito verde à nossa volta, ainda há demasiado cimento. Gostávamos de ir para uma zona mais rural, mas que seja perto de um centro. Já percebemos que o que fazemos é mais encomendado por pessoas que não têm acesso a plantas e flores. O nosso jardim já não chega para toda a variedade que gostaríamos de abraçar. Neste momento, estamos à procura de um terreno que tenha uma casa, pois queremos viver, trabalhar e cultivar no mesmo sítio. É o nosso sonho».

Fotos ⓒ Soraia Martins

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