Joana Raimundo: do lápis à concretização de um sonho

Para quem conhece a Joana Raimundo, é inevitável afirmar que a ilustração é, muito provavelmente, a presença mais notória no seu dia-a-dia desde há muitos e largos anos. Para quem não a conhece, a afirmação transforma-se irremediavelmente numa verdade absoluta assim que se vislumbra o seu trabalho.

ALMANAQUE - Joana Raimundo

Desde pequenina que a vontade de desenhar se mostra a mais forte de todas as vontades, tudo muito graças aos filmes de animação e livros para colorir que não lhe faltavam na escola ou em casa. Foi crescendo e explorando o universo da ilustração e da animação através de séries de animação japonesa, bem como livros e banda desenhada. Surgiram, também, pessoas que partilhavam o mesmo interesse, claro está. No secundário, subiu um patamar ao começar a desenvolver a técnica e, até agora, não mais parou. «Houve alturas em que desenhei menos, mas a ilustração foi uma coisa que sempre fiz e sempre com o apoio de quem me circundava».

Mas não só de ilustração se faz Joana Raimundo. Tirou o curso de Novas Tecnologias da Comunicação, em Aveiro, que na altura lhe pareceu interessante, mesmo sem saber qual o caminho a seguir. «Essa parte foi-se desenvolvendo a partir do curso e depois, quando comecei a trabalhar, aprofundou-se. O web design continua a ser uma área que me fascina apesar de, à velocidade com que se desenvolve, ser muito fácil uma pessoa sentir-se perdida e ficar para trás».

ALMANAQUE - Joana Raimundo

Depois de uma pós-graduação em Ilustração para Publicações Infantis e Juvenis, Joana decidiu subir mais um degrau, uns anos mais tarde, e colocar a arte de ilustrar num pedestal mais alto e com mais horas dedicadas ao mesmo, ainda que a sua profissão principal continue a ser web designer.

«Como em qualquer processo de desenvolvimento, o produto final é geralmente diferente do originalmente pensado: ele vai crescendo, adaptando-se, está em constante mutação»

No portefólio, conta já com algumas colaborações e comissões interessantes e imensamente diversificadas. Do conto ilustrado ‘Não é justo, Alice!’ (escrito por Joana Ramos, Edições Escafandro 2014) a um dos capítulos do livro ‘Jorge Daniel – Diário de uma Lenda’ (escritório editora 2014), passando por dois outros livros da Escafandro, ‘A Ordem do Poço do Inferno’ e ‘O Tesouro do Califa’, zines e capas de álbuns, Joana Raimundo não tem receio de explorar vários géneros, ainda que considere não ter ainda uma identidade própria.

ALMANAQUE - Joana Raimundo

«Sei que nunca fujo muito da linguagem dos comics, mas acho que ainda não tenho uma marca que faça com que as pessoas olhem e digam, “Ok, aquilo foi claramente a Joana que fez”, como acontece com tantos ilustradores. Acredito que, em parte, se deva ao facto de não ser ilustradora a tempo inteiro porque acabo por não ter o tempo necessário para desenvolver e maturar uma linguagem própria, mas também não vejo essa questão como algo negativo. Confesso que gosto muito da versatilidade de hoje estar a desenhar um insecto a preto e branco para um fanzine, de amanhã estar a fazer ilustrações infantis para um (Não é justo,) Alice, e a seguir planear uma B.D. já num estilo completamente diferente destes outros dois. Até porque me canso facilmente se estiver a fazer o mesmo tipo de coisa muito tempo seguido».

ALMANAQUE - Joana Raimundo

O processo não foge muito ao que temos vindo a conhecer de ilustradores e artistas plásticos no geral. Começa-se sempre por pesquisar, rascunhar e rascunhar, trabalhar a ilustração final e preparar ficheiros e derivações necessárias. Uma mescla entre técnica e inspiração, entre trabalho e divagação.

«Peguemos no exemplo da ilustração da capa deste mês do ALMANAQUE. Partindo do pedido que me fizeram, com as palavras-chave em mente, comecei a traçar uns rascunhos e, nesta altura, não importa fazer nada muito bonitinho, são tudo riscos na sebenta. Entretanto, houve um twist, porque numa noite fui ver estrelas e resolvi mudar a abordagem. Estas mudanças de última hora são muito frequentes (no meu caso, pelo menos), porque a inspiração vem de todo o lado se estivermos receptivos. Com a nova ideia em mente, fiz novos rascunhos e, quando estava a preparar-me para passar a ilustração a tinta, lembrei-me de fazer uma pequena alteração, e finalmente digitalizei, colori digitalmente, corrigi pequenos erros e preparei os formatos necessários».

ALMANAQUE - Joana Raimundo

«Como em qualquer processo de desenvolvimento, o produto final é geralmente diferente do originalmente pensado: ele vai crescendo, adaptando-se, está em constante mutação».

ALMANAQUE - Joana Raimundo

Nas palavras da própria, um dia na vida de Joana Raimundo é «normalíssimo». «(Querido diário,) das 9:00 às 18:00 sou web designer num estúdio de comunicação. A partir daí, vai variando. Tento ter dois dias na semana em que faço exercício físico para contrariar as horas seguidas sentadas à secretária, há um dia em que faço voluntariado e, dependendo do trabalho de freelancer que tenho para fazer, depois de jantar estou a trabalhar ou a descansar/arrumações domésticas/sair com os amigos. Independentemente do tipo de dia que tenho, antes de dormir leio sempre um pouco, nem que seja só uma página».

Adenda: depois de nos conceder esta entrevista, Joana Raimundo deu definitivamente o salto de que falava e tornou-se ilustradora a tempo inteiro – em modo freelancer. Way to go, Joana!

Imagens (c) Joana Raimundo

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