BONS SONS: melhorar o que já é bom

De 11 a 14 de Agosto, os cem-soldenses recebem de braços abertos o BONS SONS, aquele que é o mais abrangente festival de música portuguesa do país. Para quem lê esta frase com desdém, deixamos, pois, a confirmação preciosa nas mãos do director artístico, Luís Ferreira, mas não só: o ponto de partida é, desde sempre, a população desta aldeia de Tomar que contribui para esta experiência única.

ALMANAQUE - Festival BONS SONS - Cem Soldos, Tomar

(c) Pedro Sadio Photography

No BONS SONS vive-se a aldeia e a aldeia vive o BONS SONS. Em conversa com Luís Ferreira, ficámos a saber muito sobre este festival que já conta com sete edições no repertório. «Imaginem uma aldeia inteira, cercada, para se transformar num recinto para um festival. Depois imaginem que grande parte dessa população organiza, promove e faz acontecer esse festival por sua iniciativa. Agora juntem um programa de excelência, onde podem ter contacto com grandes projectos nacionais e com os projectos de futuro distribuídos em oito palcos. Espero que estejam a acompanhar. Depois, de conversa em conversa, percebem que este evento é apenas a ponta do iceberg e que faz parte de um projecto sério, sem fins lucrativos, que cria dinâmicas para o desenvolvimento daquela aldeia em particular, para a economia da região e para a cultura nacional. Óptimo, não?».

Pergunta: faz cada vez mais sentido ver o BONS SONS a acontecer ou ainda há alguma resistência? «O BONS SONS está sempre em transformação, reinventa-se para continuar a manter o seu conceito. Assim sendo, terá sempre resistências à sua transformação — ou existência. O novo estranha-se mas esse é o único caminho para um projecto cultural. Contudo, sentimos que, regra geral, as pessoas nos compreendem e somos hoje uma inspiração para o interior desertificado. Somos uma mensagem de esperança e esse é o nosso trunfo».

ALMANAQUE - Festival BONS SONS - Cem Soldos, Tomar

Dos nomes presentes em cada um destes oito palcos — Lopes-Graça, Eira, Giacometti, Auditório de Cem Soldos, MPAGDP, Tarde ao Sol, Aguardela e Garagem — há alguns que saltam à vista, sem desmérito, claro está, dos restantes. São eles: Rodrigo Leão, Orelha Negra, Mão Morta, Capitão Fausto, Samuel Úria, Paulo Bragança, Virgem Suta, Né Ladeiras, MEDEIROS/LUCAS, Glockenwise, Throes + The Shine e… A lista continua. São portugueses com muito gosto e fazem a festa ao longo de quatro dias.

ALMANAQUE - Festival BONS SONS - Cem Soldos, Tomar

Mas o elemento diferenciador centra-se noutro alvo: «A comunidade é o elemento diferenciador do BONS SONS. A sua organização e princípios transparecem no acolhimento ao público. Hoje, já existem muitos festivais de música portuguesa, e ainda bem, e muitos festivais em aldeias. Contudo, festivais da aldeia, com esta escala e impacto, não conheço nenhum. O BONS SONS é um momento festivo de quatro dias, emblema de um trabalho contínuo, ao longo do ano, de que vale a pena fazer parte. Claro que temos que falar também do desenho do nosso programa que, apesar de ser eclético, mantém uma linha com sentido, tornando-o na melhor montra para a música portuguesa».

ALMANAQUE - Festival BONS SONS - Cem Soldos, Tomar

(c) Rita Carmo

Para se aproveitar ao máximo o festival, é preciso — como referimos no início — viver a aldeia. Luís Ferreira explica e apresenta o melhor circuito: «Para “viver a aldeia” é preciso tempo para tudo acontecer. Estar no mínimo dois dias é obrigatório para experienciar um pouco de tudo que temos para oferecer. As manhãs são dedicadas às famílias, mas, entre oficinas, feiras, passeios de burro, jogos e as descobertas dos recantos do casario, é de manhã que se começa a experiência. Também vale a pena dar uns mergulhos às praias fluviais servidas pelos rios Nabão e Zêzere. Contudo, para quem não quiser sair de Cem Soldos, o plano também é bastante refrescante. Aconselhamos almoçar cedo, enquanto os restaurantes estão a tirar as primeiras iguarias. Isto porque os concertos da igreja começam também cedo. Como sabem, os concertos não acontecem em simultâneo, mas é preciso ter fôlego para chegar a tudo. As tardes são divididas entre as propostas mais ligadas à música tradicional no Palco MPAGDP, performances no Auditório e concertos intimistas nos Palcos Giacometti e Tarde ao Sol. Entre cada palco, o desafio é passar pelas tascas tradicionais e conseguir ficar só por um copo das bebidas típicas da região: sangria, mouchão, “cu de boi” ou charolinha. Aqui as bebidas de sabor caseiro casam perfeitamente com as novas sonoridades. Ao final da tarde, aventurem-se por um quintal adentro e experimentem algum dos petiscos disponíveis. Metam conversa com quem vos serve e percebam onde estão, vão ficar surpreendidos. Os cem-soldenses são bons contadores de histórias. A noite torna tudo mais pardo e cria o contexto para a festa crescente. Acordam os gigantes Lopes-Graça e Eira, palcos que recebem as propostas mais urbanas e as ligadas às músicas do mundo. Aqui há espaço para massas de gente e a experiência é única. Podem estar a saltar entre um puto de doze anos e uma senhora de oitenta. Há espaço para todos. Depois de terem visto alguns dos artistas mais importantes da cultura nacional podem retemperar energias com doces e salgados regionais. Depois do digestivo, o Palco Aguardela recebe live-acts e DJs num espaço que não é para meninos. Mas na realidade não há um roteiro ideal para o BONS SONS. O desafio é ir desarmado e perceber que a diferença está sempre nas pessoas. Sem planos, com tempo, Cem Soldos».

Fotos gentilmente cedidas pelo BONS SONS

Leave a comment