A batalha: Muito BEY

Se entre poemas e versículos se enaltecem as virtudes do Líbano, essa terra mística e histórica onde crescem as florestas de cedros, a árvore da vida, agora é em Lisboa que as delícias deste país são cantadas e exaltadas – no Muito BEY, o restaurante de Ezzat Ellaz que fomos conhecer.

A abrir o maravilhoso repasto foi colocado na mesa o couvert composto por quatro molhos tradicionais: Zaatar ou azeite com tomilho; Bezurate, um misto de frutos secos assados; Zeitune, azeitonas verdes curadas com avelã; e Kabisse, apetitosos pickles caseiros de rabanete. Para acompanhá-los, eis o manuché, o pão típico servido ainda quente. Pequenas delícias que preparam o palato e cativaram a alma para os momentos únicos que seguiriam.

A combinação deleitosa da Sandra

A escolha recaiu na salada Adasse para entrada, nos pratos Tajine Samala, Saudit Djej e Cheche Taúk e na sobremesa Reze Bi Halib. Para acompanhar, a bebida só poderia ser refresco de xarope de rosas típico do Líbano, o tão-perfumado Cahrebe Wared. A salada Adasse, composta de lentilhas com molho de romã, não defraudou as expectativas, o mesmo se passando com o Saudit Djej, fígados de galinha salteados com molho de romã – aliás, não só corresponderam ao imaginário gustativo como surpreenderam pelo sabor e pela suavidade com que os elementos foram cozinhados.

ALMANAQUE - Muito BEY

ALMANAQUE - Muito BEY

Já o Tajine Samala e o Cheche Taúk não ficaram em tão elevado patamar. O Tajine Samala é filete de peixe desfiado com tahini, que se confeccionou sem brilho e sem sabor definido. O Cheche Taúk é espetada de peito frango assado marinada com molho de alho e servida com manuché. Talvez pelo facto de já estar assado e de ser, por si, a parte do frango quase ausente de gordura, o peito estava demasiado seco, a ponto de impedir a apreciação na íntegra dos sabores.

Finalmente, a sobremesa revelou-se a “rainha da festa”: Reze Bi Halib é um mil-folhas feito de farinha de arroz e aromatizado com água de flor de laranjeira. Um mil-folhas tornado mil encantos, não muito doce mas muito perfumado e de um equilíbrio perfeito entre ingredientes e mestria de execução, vulgo, arte de bem cozinhar.

ALMANAQUE - Muito BEY

Apresentação: ∇ ∇ ∇ ∇
Serviço: ∇ ∇ ∇ ∇
Preço: ∇ ∇ ∇ ∇
Sentido de oportunidade: ∇ ∇ ∇ ∇ ∇
Geral: ∇ ∇ ∇ ∇

A mescla ambrosíaca da Soraia

Depois do burburinho que rapidamente se espargiu pela cidade, as expectativas eram altíssimas. Os sabores libaneses eram novidade para mim e, por isso mesmo, a perspectiva de ter o meu palato transformado por um manjar desconhecido deixou-me tão entusiasmada quanto seria de esperar numa situação desta natureza. Depois de degustar o couvert acima descrito, quase que dando as boas-vindas que tanto esperava, deliciei-me com Chorbite Lefet e Labné, uma sopa de beterraba com iogurte cremoso coado, cujo equilíbrio de sabores estava genuinamente no ponto.

ALMANAQUE - Muito BEY

Como pratos principais – ou mezze, uma selecção de pratos mais pequenos para partilhar e acompanhar bebidas alcoólicas – escolhi o Húmus, a tão disseminada pasta de grão com tahini, definição à qual o Muito BEY acrescenta ‘autêntica’ – e Falafel, que não são mais do que almôndegas fritas de grão e favas ou, na verdade, aglomerados de céu. Seguiu-se o Samké Harra, bacalhau assado com ervas e molho temperado, uma explosão de sabores que talvez tenha ido mais além do que seria de esperar para um prato que vem complementar o que já foi ingerido. Merece, contudo, uma menção honrosa pela textura aveludada do peixe.

ALMANAQUE - Muito BEY

O pouco espaço que havia para sobremesa aceitou de bom grado a mousse de chocolate com raspas de laranja. Divinal, sem sombra de dúvidas, esta mousse poderia ser muito bem o ex-líbris do Muito BEY, não fossem os sabores libaneses o propósito deste novo espaço no Cais do Sodré.

ALMANAQUE - Muito BEY

Apresentação: ◉ ◉ ◉ ◉
Serviço: ◉ ◉ ◉ ◉
Preço: ◉ ◉ ◉
Sentido de oportunidade: ◉ ◉ ◉ ◉
Geral: ◉ ◉ ◉ ◉

Fotos (c) Soraia Martins

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