Anita dos 7 Ofícios: a menina-mulher de sonho pungente

PÓ-DE-ARROZ é o tributo merecido à sensibilidade e à força, à robustez que é ser mulher sem desprendimento do feminino, da candura, da destreza. É o elogio que faltava e que preserva agora, aqui.


Ana Morais é Anita, menina-mulher que se dilata entre a fotografia e a escrita, dois universos que se compõem e complementam – como se o talento fosse um dado adquirido que se descreve com meia dúzia de palavras. Os ofícios são sete ou até mais, mas o coração é apenas um e bate compassado por todas as coisas que acontecem à sua volta e às quais Anita reconhece gratidão e sensibilidade.

ALMANAQUE - Anita dos 7 Ofícios

Transmontana de Mirandela, Anita foi e será sempre, a verdade é essa, cidadã de todo o mundo. Aos 18 anos sai da terra que a viu desabrochar para ir estudar Línguas e Literaturas Modernas na Universidade de Coimbra e, pelo meio, vive um ano em Berlim. Quando terminou a licenciatura, virou-se para o único sítio onde conseguiu arranjar emprego, Vila Real, não muito longe da sua querida Mirandela, onde estagiou, aliás, num posto de turismo virado para a cultura com a vantagem de poder desenvolver algumas actividades e eventos nesse ramo. Mas tão depressa bate esse tal coração como desafina, e aquilo que Anita queria mesmo era poder fazer o caminho da comunicação social, das relações públicas, da tradução, de todas essas coisas que a preenchiam sobremaneira.

ALMANAQUE - Anita dos 7 Ofícios

Depois de trabalhar em áreas muito distantes da sua, começou a enviar CVs para Lisboa – «era uma ideia que eu tinha: estudar é em Coimbra, trabalhar é em Lisboa ou fora» – e acabou por ir ter a um sítio que «supostamente nada tem a ver com ela», diz, um banco financeiro francês onde tem permanecido desde então, há já seis anos. «Fiz vários projectos ligados à área da criatividade que estabeleceram sempre um ponto de relação com aquilo que eu quero realmente desenvolver. Fiz também parte da fundação de uma associação dedicada aos colaboradores de organização de eventos a nível cultural, desportivo, de corporate responsibility, entre outros. Foi muito interessante, porque nunca parei de exercer as funções que me foram destinadas na empresa, nem nunca quis mudar. Quando terminei os dois anos de mandato, decidi sair porque sempre achei que isto era uma oportunidade também para ser vivida pelos outros colaboradores em termos de gerir qualquer coisa, e depois surgiu a oportunidade de me candidatar ao comité europeu do grupo. Tem sido extremamente enriquecedor, não só a título corporativo, mas também pessoal, porque tenho conhecido pessoas extraordinárias de todos os cantos da Europa».

Apaixonar-me por aquilo que faço é uma cláusula de peso.

Chegada a Lisboa, criou um blog a que chamou ‘Playground’. «Era a minha escapatória onde ia partilhando as peripécias do meu dia-a-dia, mas sentia, ao mesmo tempo, que não era eu, era só um descarregar de coisas que me aconteciam e não era bem o que eu queria como blog. Comecei realmente a amar fotografia quando fiz Erasmus em Berlim e a querer fazer alguma coisa em relação a isso. Quando vim para Lisboa, tive a oportunidade de fazer workshops atrás de workshops, incluindo técnicos, muita tentativa e erro. Como não tinha dinheiro para pagar produções, comecei a dedicar tempo a fazer isso também, e até maquilhagem aprendi a fazer».

ALMANAQUE - Anita dos 7 Ofícios

Os 7 ofícios começaram a ganhar terreno quando os colegas de trabalho lançaram a ideia pela primeira vez, mas não foi por acaso. «sempre fui assim, nunca consegui estar parada ou a fazer apenas uma coisa, sempre fui multifunções. Mas achei tanta piada ao exagero dos 7 ofícios que passei a usá-lo como título do meu blog».

ALMANAQUE - Anita dos 7 Ofícios

Numa altura em que o visual se impõe como elemento dominante, a Anita dos 7 Ofícios quis escrever. Com um livro a amadurecer na gaveta, os textos soltos que escolheu partilhar com os seus leitores serviram para auscultar opiniões e pareceres. «Vai acontecer, tenho a certeza que sim, com outra maturidade. Acho que não é a fase ideal para acontecer, daí estar a deixá-lo amadurecer um bocadinho mais na gaveta».

A Anita sempre existiu. A minha personalidade não é muito fácil e, apesar de gostar de falar, ora sou tímida, ora estou a afastar as pessoas para me resguardar. É uma mistura de sentimentos que, às vezes, é complicado gerir.

«Depois comecei a pensar no exagero do título e, sim, eu faço muitas coisas, mas não sou a única a fazê-lo. Tenho imensos amigos em áreas artísticas e criativas que abdicaram de muita coisa na vida só para fazer isso, e que faziam muitas coisas também – achava que eles faziam muito mais do que eu. Eles, sim, mereciam aquela faixa. Para tirar a carga que o nome 7 Ofícios trazia, decidi ir buscar pessoas que eu acho que merecem, que são meus amigos, que são heróis e que têm sido uma inspiração. Acabei por dedicar tempo também a essa parte. A fotografia esteve sempre presente, mas não queria de todo perder a parte da escrita».

Um dos 7 ofícios da Anita é bem conhecido do público e uma ferramenta que tem evoluído imenso em Portugal para regozijo de quem acompanha as tendências visuais e a comunidade quem tem vindo a crescer cada vez mais. Falo do instagram e de como a Anita contribuiu para a mudança do paradigma.

ALMANAQUE - Anita dos 7 Ofícios

«Há um ano e meio senti que estava a empancar na fotografia e que as coisas não estavam a correr bem; não estava a conseguir evoluir. Cheguei a um beco sem saída. Nessa altura decidi fazer o que costumo fazer muitas vezes, que é viajar sozinha. Pego na backpack, vou ter com amigos e passo lá uns dias com eles. Dessa vez fiz isso durante quinze dias. Deixei de fumar, também, pouco antes de entrar no avião. Foi uma altura de renovação. Comecei a comer melhor, comecei a fazer algumas mudanças na minha vida».

ALMANAQUE - Anita dos 7 Ofícios

O primeiro destino desses quinze dias de um quase recomeço foi Dublin, a sublime capital da Irlanda, onde Anita reconheceu o instagram com outros olhos e objectivos claros. «Aquilo não era nada. Achei que estava a perder uma oportunidade de ter um portefólio online que eu pudesse actualizar regularmente. Precisava de alguma coisa mais instantânea. Apaguei tudo o que tinha e comecei do zero». Londres, o destino seguinte, foi a cidade escolhida para a primeira fotografia da sua nova galeria. «A Anita, ao longo dos tempos, transformou-se no reflexo da minha essência, daquilo que eu realmente sou e daquilo que eu realmente quero fazer, o espelho dos meus sonhos e das minhas aspirações».

O universo acaba por arranjar maneira de retribuir aquilo que dás aos outros e acho que não me posso queixar.

O instagram evoluiu e a Anita evoluiu também, passando rapidamente ao passo seguinte: a comunidade. «Passado uns meses de estar no instagram à séria, soube de um meeting do @igersportugal na Nazaré e estive até à última para me decidir se ia ou não. Depois pensei que não era em casa que as coisas iam acontecer. Se as pessoas gostarem, gostam; se não gostarem, não gostam. Só mais tarde é que percebi quem é que ia e eram pessoas por quem eu tinha muita admiração. Há galerias no instagram que são pura arte, não só de fotógrafos, mas de criativos visuais, artistas plásticos, um sem número de pessoas que usam o instagram para se promoverem. Acabei por conhecê-los e foi um dia magnífico. Se eu já estava um pouco envolvida na comunidade do instagram em Portugal, a partir daquele momento as coisas tornaram-se um pouco mais intensas. A comunidade em si, como em tudo, é quem fomenta as coisas. Não somos ninguém sem os outros».

Fotos © Ágata Marinho

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