Anita dos 7 Ofícios: a leveza das palavras escritas

PÓ-DE-ARROZ é o tributo merecido à sensibilidade e à força, à robustez que é ser mulher sem desprendimento do feminino, da candura, da destreza. É o elogio que faltava e que preserva agora, aqui.


A vida é uma crónica. Das linhas surgem etapas, dos erros emergem atlas dos corpos que habitamos. Escrever transforma-nos como seres capazes de amar e de cuidar de quem nos ama também. Talvez seja por isso que quem escreve se sinta indelevelmente atraído pelo semelhante que o faz com requinte, deixando o coração a céu aberto, sem pudores. A Anita dos 7 Ofícios acompanha, a meu ver, esta tendência e vai somando elogios de quem com ela se cruza.

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Um dos mais recentes projectos com os quais se envolveu foi a revista Gerador, um tributo trimestral em papel à cultura portuguesa com um elenco de luxo composto por pessoas que dedicam muito do seu tempo à escrita, ao design, à fotografia, à ilustração, à ciência, à comunicação, ao teatro e a muitas outras áreas que compõem este nosso Portugal.

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«Conheci a Gerador quando foi lançado o número 1 porque muitos amigos e pessoas com quem falava e conhecia fizeram parte desse número. Fui à “primeira comunhão”, que foi o nome que deram ao lançamento, fiz umas fotos e falei um pouco sobre isto no meu blog. Fui lá com o intuito de ver as pessoas que dela fazem parte e para mostrar como me sentia orgulhosa. Acabei por tropeçar quase literalmente no editor que, por sua vez, acabou por conhecer as minhas fotografias e o que escrevi sobre o acontecimento. Como gostou, convidou-me a fazer parte do número 2».

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Tenho tido a sorte de me cruzar com projectos incríveis em que acredito a 100%, e é por isso que lhes dou muito de mim. Aliás, não sei fazer as coisas de outra forma. Não faço as coisas só porque sim, não dá.

Para este segundo número, a Anita aceitou o desafio de fazer um monumento – leiam a revista e descobrirão o que significa esta ideia – que basicamente constava em atravessar o país pela EN2 num fim-de-semana. A foto-reportagem que daí resultou transformou-se, no final das contas, numa novela fictícia que criou com um amigo que levou consigo, também fotógrafo, mas que não pôde fotografar nada.

«Saímos de Lisboa às 17h de uma sexta-feira e chegámos a Chaves às 00h30. Dormimos num hotel de estrada – que adorei – e, às 7h, estávamos no quilómetro 0. Chegámos ao Alentejo nos últimos raios de sol, onde tivemos a honra de ficar numa residência artística da Maria João Luís, em Ponte de Sor, uma quinta alentejana onde não se ouvia nada à volta a não ser os bichinhos. No dia a seguir, recomeçámos bem cedo e fomos para o Algarve, e do Algarve para Lisboa».

«Testámos ser ele a conduzir e eu a fotografar, mas graças a isso perdi talvez umas cinco fotografias que ainda me estão na cabeça e das quais ainda hoje em dia me lembro. Como o carro era meu, ele tinha medo de parar o carro em qualquer berma, é normal. Em Trás-os-Montes, por exemplo, não há berma, mas eu parava na mesma, conhecia bem os riscos e também não era doida o suficiente para parar no meio da estrada de qualquer forma {risos}. Foi uma aventura espectacular e eles adoraram».

A vida é feita de oportunidades. Às vezes temos hipótese de as agarrar, outras vezes não, mas temos de estar preparados para isso. Nunca sabemos quando voltam. As coisas são cíclicas, mas não sabemos quando será o ciclo seguinte.

A caminhar a passos largos para o número 6, a Gerador conta já com a Anita na equipa de redacção. «Chamamos-lhe a assembleia de condóminos», conta. «Tem sido uma experiência fantástica, eles têm sido incríveis, apostaram em mim e acreditaram no meu trabalho, e conseguiram que aliasse também a fotografia à escrita».

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«A escrita acabou por adoptar também a Anita, não dá para dissociar uma coisa da outra. Cada vez mais percebo que a Anita dos 7 Ofícios é a minha marca. A minha maneira de escrever peculiar, que é uma mistura de o-que-é-verídico e de o-que-nunca-aconteceu e que se passou apenas na minha imaginação – e, muitas vezes, na imaginação dos outros, em conversas e outras coisas que vou assimilando – é, sem dúvida, o reflexo da Anita, dos meus sonhos, do que ouvi, do que já passei».

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Durante este ano que está a chegar ao fim, o seu À CONVERSA COM, uma rubrica que mantinha no seu blog na qual divulgava pessoas que admira, passou para o P3 a convite do editor, Luís Octávio Costa. «Quase que tive um ataque de histerismo», confessa-nos Anita, incrédula por poder fazer parte desta plataforma que tão bem conhecemos.

O instagram surge, também e acima de tudo, como ferramenta de trabalho na qual tem apresentado as suas colaborações com algumas marcas internacionais, como a Herschel, a convite da TRANSMISSION, e a Nixon (Europa).  «Lá fora já perceberam isto há muito tempo e em Portugal começam a perceber agora. Tenho a sorte de ter algum bom feedback desse lado, até porque comecei a trabalhar com a gestão e a criação de conteúdos nesta plataforma». Mais sobre isto na terceira e última parte desta magnífica história protagonizada pela Anita dos 7 Ofícios.

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